
Se você piscou, talvez tenha perdido o anúncio mais inusitado dos últimos tempos: São José de Ribamar, terra dos festivais populares, das tradições ribeirinhas e do inesquecível Festival do Peixe-Pedra, está sediando um… campeonato de jet-ski. Isso mesmo, jet-ski. Aquele brinquedinho náutico que a gente vê de longe bem longe, pilotado por visitantes bronzeados e patrocinados por sobrenomes, e que, para a maioria dos ribamarenses, é praticamente um luxo inalcançável.
E como se isso não bastasse, o espetáculo não vem sozinho. Por trás de toda essa ostentação, brilha a figura do secretário de Esporte e Lazer, que, a julgar pelos acontecimentos, parece ter se desligado da verdadeira essência do que é esporte e lazer no nosso município. Enquanto a cidade já foi sinônimo de corridas de barco e festivais autênticos como o tradicional Peixe-Pedra, hoje a prefeitura prefere montar um aparato gigantesco para um evento aquático elitizado palco, som, estrutura, mídia, um verdadeiro tapete vermelho flutuante para um show que agrada a poucos.
A pergunta que não quer calar é: quem em Ribamar tem jet-ski? Se formos contar, dá pra usar só uma mão e ainda sobra dedo. Enquanto isso, nossos atletas amadores, que fazem mágica com chuteiras furadas e bolas murchas nos campeonatos interbairros, continuam esperando por apoio. Os jovens das periferias, das comunidades distantes, que jamais viram um jet-ski de perto, seguem sem torneio, sem incentivo, sem visibilidade.
E o que dizer do secretário? Um gestor que deveria conhecer de perto a realidade das quadras abandonadas, dos campos improvisados e dos sonhos de uma juventude que busca no esporte uma forma de transformar sua vida. Em vez disso, o que se vê é um verdadeiro desfile de aparências, onde o conceito de “lazer” é distorcido para encaixar em uma narrativa de luxo e ostentação, enquanto o esporte popular é relegado ao esquecimento.
Não seria mais lógico e simbólico promover algo alinhado à nossa identidade? Uma corrida de barcos regionais, uma competição de nado nas nossas praias, ou até mesmo resgatar os festivais tradicionais como o Peixe-Pedra. Mas não. A escolha foi por um evento excludente e, com todo o respeito aos praticantes de jet-ski, absolutamente desconectado da realidade ribamarense.
A sensação é clara: estamos patrocinando, com dinheiro público, um show para agradar uma minoria geralmente de fora , enquanto os nossos seguem invisíveis. E o que São José de Ribamar ganha com isso? Visibilidade? Talvez, mas visibilidade para quem? Para os “filhinhos de papai” de São Luís que vão postar vídeos no Instagram pilotando máquinas caríssimas? Para os políticos que querem se promover em cima desse espetáculo de luxo?
É revoltante e, acima de tudo, profundamente irônico. Enquanto a periferia grita por investimento e apoio para o esporte que realmente transforma vidas, a orla se enche com o ronco dos jet-skis. Se é para sediar algo, que seja algo nosso, que seja do povo. Que faça sentido para quem mora aqui o ano inteiro e não só para quem aparece nos fins de semana com gasolina cara e pose de veranista.
Ribamar sempre foi orgulho de sua identidade de suas corridas de barco, do tradicional Peixe Pedra e do suor e união de seu povo. Apostar em um campeonato de jetski, que pouco tem a ver com nossa realidade, revela o afastamento das prioridades verdadeiras da cidade. Em vez de celebrar nossas raízes e investir no esporte que transforma vidas, a prefeitura escolhe ostentar para uma minoria. O verdadeiro troféu que faltaria aqui é o reconhecimento e o apoio à dignidade do nosso povo.